Artes

Psicopatologia e Literatura | Ep1 Dostoiévski e o mistério de ser homem

A série de Podcast Psicopatologia e literatura idealizada e produzida por Adriana Costa agora na revista Pluriverso. Você pode acompanhar aqui, no seu app de podcast preferido ou no blog da Dri. Porque aqui é assim, partilhado, diverso e colaborativo.

por Adriana Costa

Ouça ou leia, ou leia e ouça…

Dostoiévski foi um novelista russo, escritor de pequenas histórias, ensaios e jornalista.

O romancista nasceu em Moscou em 3 de dezembro de 1821, período do Czar Nicolau I, uma época de crise na intelectualidade russa e busca de novos valores. O seu trabalho  explorou a psicologia humana em um período de atribulações políticas, sociais, e espirituais. Ele dizia :

“O homem é um mistério que é necessário esclarecer, e se passei a vida toda tentando esclarecê-lo, não diga que perdi tempo, eu só estudo este mistério porque quero ser homem”

Embora não seja possível afirmar em que medida a vida de um artista influencia diretamente a sua obra e nem mesmo em quais proporções a obra de arte contém a vivência do artista, acredita-se ser inegável a referência sempre presente de uma em outra. A aposta veemente na transcendência em detrimento ao materialismo, o qual Dostoiévski tanto temia; esta aposta não era tão cegamente convicta; pelo contrário, estava sempre evidente a tensão da dúvida em suas personagens. Sua criação foi sempre pautada na religião cristã ortodoxa, a saber que sua mãe, mulher bastante religiosa, ensinou-lhe e a seus irmãos lerem a partir de um devocionário do século XVIII. Para o escritor a compaixão deveria ser a regra entre os homens.

“Essas primeiríssimas impressões a despertar a consciência da criança eram personificações da doutrina cristã, e, desde então, o mundo para Dostoiévski sempre apareceu transfigurado pelo brilho dessa luz sobrenatural. Mais tarde, ele iria dizer que o problema da existência de Deus atormentou-o a vida inteira, mas isso apenas confirma que para ele sempre foi emocionalmente impossível aceitar um mundo que não tivesse relação alguma com qualquer espécie de Deus “(Biografia Frank )

Em muitas obras de Dostoiévski, é possível observar a presença de suas experiências de vida, ilustrando determinadas cenas ou ajudando às personagens desenvolverem melhor a suas idéias, enriquecendo a trama com a própria vivência do artista.

No seu livro : O diário de um escritor, de 1874, Dostoiévski revela abertamente suas opiniões e posicionamentos. Em outra obra, O Idiota de 1868, o caráter biográfico aparece subjacente nos relatos do Princípe Mychkin, trazendo inclusive a sua experiência com a epilepsia.          As sensações de sublimidade e transcendência que antecediam os ataques são relatadas, e  o sentimento de felicidade e perfeição sentidos pelo escritor compõe os relatos do princípe.

Outro momento biográfico importante vivido pelo escritor e relatado na história é o da execução da pena de morte. Essa experiência , tão dramática quanto reveladora, foi fruto da punição e sentença de Dostoiévski, por participar no círculo revolucionário de Petrachévski.   O que lhe rendeu dez anos de exílio na Sibéria, quatro deles como prisioneiro em Omsk e os restantes, como soldado e oficial do exército russo.

“Dostoiévski jamais esquecerá o ímpeto de renovação que o arrebatou naquele momento, assim como jamais abandonará a esperança de poder comunicar a outros a mesma confiança em infinitas possibilidades que fizera vibrar cada fibra do seu ser. Foi essa enlevada compreensão da vida, e essa ambição, que ele posteriormente emprestou ao príncipe Mychkin, embora com a triste e irônica certeza de que tal aspiração pareceria “idiota” aos olhos dos que se prendem às paixões e preocupações da vida mundana” Biografia Frank

Em Diário de um escritor (1873), Dostoiévski relembra:

“Quando nós [os petrachévtsy] estávamos no presídio de Tobolsk, à espera do que o destino nos reservava, as mulheres dos decabristas apelaram ao diretor da prisão e conseguiram marcar um encontro conosco no alojamento dele. Pudemos então olhar para essas grandes mulheres sofredoras, que haviam seguido voluntariamente os maridos até a Sibéria. Elas tinham sacrificado tudo pelo dever moral mais sublime, um dever que coisa alguma lhes teria imposto senão sua própria vontade. Inocentes de todo crime, elas suportaram durante vinte e cinco longos anos tudo o que seus maridos condenados padeceram”.

É este amor, renúncia a qualquer egoísmo que o escritor procura e escreve.

[…] tomai sobre vossos ombros os pecados humanos, e tornai-vos responsáveis por eles.

Após três dias de cama, porém sem dor, Dostoiévski morreu em 9 de fevereiro de 1881.

“Desde sua volta da Sibéria em 1860, Dostoiévski vinha sonhando em unir a sociedade russa num todo harmonioso ligado pela fé pelo amor. O mais perto que chegou de realizar essa sublime quimera foi durante os dias em que seu corpo se manteve no ataúde. Todos – literalmente todos – aqueles que viviam a vida cultural e política de São Petersburgo, o centro nervoso do Império Russo, vieram prestar-lhe homenagem. […] Os próprios contemporâneos não puderam deixar de encantar-se com a unanimidade de pesar e de reverência subitamente exibida por todos os setores de uma sociedade que, em outras circunstâncias, era separada por incessante conflito” (Biografia Frank)


Referências :

Biografia : Joseph Frank


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