CyberCultura, T.I. e colabs

O lugar do humano na internet

Por Claudio Barría Mancilla *

Ele me disse: Eu sozinho tenho mais lembranças das que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como sua vigília de vocês. E também, ao amanhecer: Minha memória, senhor, é como um depósito de lixo.

Funes não só se lembrava de cada folha de cada árvore de cada montanha, mas de cada uma das vezes em que as havia percebido ou imaginado. (…)

Seus projetos (…) (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um catálogo mental inútil de todas as imagens da memória) são tolos, mas revelam uma certa grandeza gaguejante. Eles nos permitem vislumbrar ou inferir o mundo vertiginoso de Funes. Este, não nos esqueçamos, era quase incapaz de ideias gerais platônicas. Não só era difícil para ele entender que o símbolo genérico ‘cão’ abrangia tantos indivíduos díspares de vários tamanhos e formas; O incomodava que o cachorro das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o das três e quinze (visto de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, o surpreendiam todas as vezes.

[Funes el memorioso, J. L. Borges] (tradução minha)

World Wide Web (Teia Mundial, na tradução literal), conhecida no mundo todo pela sigla www que antecede cada endereço na internet, foi criada pelo cientista Tim Berners-Lee em 1989, e é o que é hoje, em boa medida, graças a que em abril de 1993 foi licenciada como domínio público pela CERN (sim, aquela mesma dos mega aceleradores de partículas). Esse detalhe da sua história é importante porque nos lembra que a lógica da partilha e da colaboração, longe de ser utopia de hackers e idealistas da cibercultura, é a base da própria existência daquilo que chamamos de Internet.

Hoje, a Web possui uma quantidade incalculável de dados que supera já 1 Bilhão e 240 milhões de sites indexados (contando cada rede social— como Facebook, Instagram, WhatsApp ou Twitter — como um (01) único site cada uma, e não incluindo a chamada deep web). De fato a Internet como um todo é bem maior do que isso. É, de fato, e há muito, o maior arquivo jamais criado pela humanidade.

A artista, pesquisadora e curadora Gisselle Beiguelman comparou a internet de hoje a Funes, o memorioso, triste personagem do escritor argentino J. L. Borges, cuja memória era absoluta, assim como a sua impotência intelectual.

“Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.”

Funes lembrava de tudo. “Recordava cada folha de cada árvore de cada monte”. Registrava detalhes e mais detalhes, mas sofria muito. Não conseguia pensar, pois pensar, nos lembra Borges, exige a capacidade de abstrair.

A realidade do meio digital, com seu incomensurável oceano de dados, inserido de forma indelével no nosso cotidiano social, econômico e cultural, impacta direta e profundamente a Educação, a comunicação humana, a produção e transmissão de conhecimentos, muito para além dos debates binários entre a Escola tradicional e o chamado EaD, que é um outro tema que também abordaremos, pois está no centro da proposta de educonexão do Pluriverso.

O ponto é: Dados precisam ser transformados em informação e informação em conteúdo significante, conhecimento que se articula com a vida de pessoas e coletivos e com os sentidos que partilhamos. Essa é a grande função da mediação na internet, e se bem todo o anterior (armazenamento e disponibilização de dados, mecanismos de busca, referenciamento, indexação e mesmo a definição de relevâncias) sejam tarefas hoje automatizadas por meio de complexos algoritmos que reorganizam e entrelaçam plataformas na WEB, esta última tarefa, a da mediação, é exclusiva e essencialmente humana, como aponta Beiguelman, em seu artigo “Curadoria de Conteúdo é o lugar do humano na internet”.

Los Poderes del Desorden — Roberto Matta (1966)

A mediação é da ordem do humano, pois requer a articulação de vivências e sentidos produzidos na relação dos sujeitos e coletivos com o mundo e com o outro, com seus fazeres criativos, simbólicos, sociais e políticos, no seu modo de projetar e negociar subjetividades. São elas, as teias intersubjetivas, que têm se demonstrado altamente potentes. Sua potência emerge ante nós se entendida a mediação como da ordem de uma poética do encontro e da relação.

Para realizar essa tarefa tão intrinsecamente humana em meio aparentemente tão árido e frio, é preciso entender que a chamada rede mundial de computadores é, antes de nada, uma rede mundial de pessoas e coletivos que se conectam e interagem ‘a través’ de computadores e outros meios digitais hoje disponíveis (tablets, celulares, relógios e um cada vez maior etc.). Isto não é o nosso futuro, é o nosso presente, mesmo para aqueles que não são usuários assíduos ou entendem-se fora do mundo digital. web

É nesse contexto que se insere o Pluriverso, como instrumento que — a partir dos nossos princípios, valores e relações — articula enriquecedoras experiências locais à multidão. Mas o faz de maneira tal que estas não sumam no meio dela, mas redefinindo modos e sentidos, costurando, em tempo real, uma cartografia constante de fazeres que, assim, se entrelaçam é produzem novos sentidos, novas releituras do mundo. E isso porque os usuários do Pluriverso não são apenas leitores, curiosos navegantes, mas também criadores, sujeitos articulados aos seus coletivos em diversos espaços locais que se interpolam e trocam.

Assim, quando falamos que o Pluriverso é um nó articulador de redes de sujeitos e coletivos que produzem saberes, não estamos apenas na ordem dos meios de comunicação, como seria antigamente uma revista institucional, por exemplo, nem na do Marketing, no seu sentido tradicional, que busca um meio que amplie o alcance e impacto de peças de divulgação para venda de produtos ou serviços. É talvez, também isso, em parte, toda vez que a inserção na multidão como mediador de conteúdo constitui hoje o mais caro mecanismo de legitimação de marcas no caos de dados que seria a web sem indexação e lugares de referência. Achar-se e ser achado nesse mar turbulento onde todos navegam é ter uma vantagem comparativa incalculável. E sim, o Pluriverso possibilita essa vantagem comparativa a todos os membros da sua comunidade.

Mas não é apenas isso. Vai além, como instrumento que permite reforçar um tecido esgarçado pela fragmentação das práticas e dos coletivos em suas particulares e relativamente pequenas lutas por construir um mundo melhor a partir do encontro e da memória do comum. Eis a sua força política, que não busca ser apenas espelho da nossa pretensa potência, mas que só é enquanto está sendo entrelaço de muitas trajetórias de fazeres e sentidos articulados pelo encontro que ele propicia. O Pluriverso é, como pensado desde o início, nós no mundo, e o mundo em nós, entrelaçados em redes de cooperação, colaboração e interação criativa.

E é que o Pluriverso se propõe a ser um  agenciador de uma rede de redes de co-elaboração de sentidos éticos e estéticos desde o mais profundo do Brasil e da Nossa América, isto é, desde a nossa contemporaneidade ancestral. É esta nossa utopia realizável, o nosso inédito viável.

Tomas Colbengtson, Sápmi, 2018. Screen, oil on aluminium, 35 x 50 cm.

(*) Claudio Barría Mancilla é músico, Doutor em Educação pela UFF, Pesquisador do NIRA/ UERJ, e membro do Coletivo Pluriverso.

*Publicado originalmente na página do autor no Medium.

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