Direito(s)

Con(s)ciência, ou 20/11/20

por Clementino Junior*

“Como? Em perspectiva ou realidade somos
Conscientes da mortalidade
Como único animal, o único animal
Somos o único animal, consciente da mortalidade
Com é que eu vivo com a morte
Essa que acentua o nosso privilégio
Como é que eu vivo com essa sorte
E vou aproveitando o meu sortilégio
E quanto à morte do planeta
Como é que se vive com uma arma na cabeça?”
(Vivendo com a morte — Emicida — Língua Franca — 2017)

A invenção por vezes vinha da observação. O ócio foi o ponto de partida para muitas experiências vistas como científicas. Viver o ambiente em sua plenitude, encontrar soluções e inspirações com um virar de pescoço, com a percepção do ruído no silêncio, perceber a virada do tempo no arrepio ou não da pele.

Para recorrer à relação do homem (enquanto ilustração de humano, não de gênero) como parte da natureza, a partir de imagens e imaginários, me remeto à performance fundante do cinema negro, “Alma no Olho”, do cineasta pioneiro Zózimo Bulbul, em especial na sequência em que representa a vida de um africano antes do sequestro de sua terra natal. As vestimentas e elementos repressivos o algemam da mesma maneira que as roupas e estereótipos imputados ao seu corpo, outrora desnudo, e cujos adereços significavam mais seu pertencimento ao seu território do que uma tendência da moda ou uniforme.

A chamada ciência, que era algo tão presente e natural na vida humana, foi sendo vestida e presa a outras lógicas, como as algemas e correntes do cativeiro dos escravizados. Nos cegamos para a aproximação do temporal, para o risco do crime ambiental feito por empresas gananciosas, ou para iminência do assalto ou assassinato em um ambiente inóspito. Nos vemos ansiosos para que a tal ciência, hoje colocada como um status, venha a nos restaurar a uma vida que não fazia sentido enquanto vida. Nos acostumamos a achar que o pouco sofrimento é motivo de comemoração e que a pouca dor não é alerta de um problema de saúde em desenvolvimento, mas de algo que pode ser empurrado para depois com medicamentos.

Em que momento a fruta do quintal ganhou status de alimento orgânico e inacessível para os bolsos de maioria de uma população que tem espaço para uma horta no quintal? Quando falo de status, penso na mesma dimensão de os orgânicos disputando consumidores como um produto caro ou um totem ideológico para ativistas do bem estar sugerirem outras formas de alimentação não envenenada, com os produtos das grandes distribuidoras produzidos com defensivos agrícolas, outrora chamados — apropriadamente — agrotóxicos. O inseticida para matar as pragas e prolongar sua aparente validade.

Ciência, como pensada, nada seria sem a consciência. Consciência, enquanto palavra, vem do latim conscire, com + saber, a sabedoria a partir da percepção. Todo inventor ou todo cientista, em teoria, seria consciente. Mas seguindo a lógica da palavra, todos os chamados povos primitivos são os que mantém essa consciência aflorada. E não é à toa que nos ramos espiritualizados, ligados às tradições de matrizes africana e indígena, atuam em estados de consciência ampliada, ou dando real significado ao inconsciente, da forma como a psicanálise o vê, como um iceberg, gigante e profundo, mas o qual só vemos uma ponta imersa sobre as águas.

A ciência enquanto status já foi usada, por exemplo, para validar preconceitos que fez com que esse mesmo africano, consciente de si e de seu ambiente, fosse tratado como algo abaixo do humano e, com isso, se justificasse socialmente toda a gama de violências sobre seu corpo, na tentativa inclusive de afastá-lo de seu espírito. A Eugenia, cujo termo significa “bom nascimento” ou “boa geração”, buscou, a partir de quem se apropriou e sistematizou os conhecimentos científicos ancestrais e o tornou um elemento a favor do poder, e não do bem estar, criar pensamentos tão profundos sobre pessoas de pele mais escura no planeta, para ressaltar um vício de comportamento presente antes dessas “pesquisas” que comparavam o crânio de africanos ao de animais, que seus reflexos se fazem presentes até hoje, segregando, adoecendo e matando pessoas pretas a partir do que veio a se chamar racismo. O racismo mata pelo desprezo que a pessoa sente diante de quem se sente acima dela, ou tem poder real sobre ela. O racismo mata por deprimir quem vê mortos seus sonhos antes mesmo deles se tornarem possibilidade. O racismo mata enquanto o status se referencia na cor da pele e esta cor já foi definida por uma ciência não-consciente como símbolo de violência, indolência, ignorância e desumanidade. O racismo gera auto-ódio e o auto-ódio isenta o racista.

O racismo mata e a desigualdade social no ir e vir ainda nos coloca no topo das vítimas do Covid-19. Mas não querem esperar que o vírus faça o “serviço sujo” por eles, os racistas, que comemoram cada enterro como a vitória de uma política de “higienização”. Daí, em quadro de isolamento social, os números não param de crescer e nos visibilizar como alvos.

Dia da Consciência Negra, vemos um crime realizado na véspera. Mais uma vez por uma grande rede de supermercados. Mais uma vez contra uma pessoa negra, morta mais uma vez.

Não interessa se ela compraria muito, compraria pouco, se seria produto orgânico, transgênico, processado, se foi ríspido ao reclamar, se o serviço da atendente (não) foi bom — supermercados têm serviço de segurança para além de produtos de consumo para os consumidores cidadãos. Segurança orientada ainda pela mesma lógica de quem garantiu, pela força, que a eugenia fosse absorvida pela sociedade, por muitos acadêmicos, como uma forma de validar na medicina, no direito e em diversas outras cadeiras o que o intelectual camaronês Achille Mbembe chama de Necropolítica. Esse conceito, onde o estado decide quem pode e deve morrer, é um conceito científico criado por um africano, a partir da percepção do que ocorre em seu entorno, e foi para a ciência. Antes dele, muitos outros africanos e afrodescendentes se apropriaram da ciência “status” para transformar o mundo no qual, outrora, seus ancestrais se entendiam plenamente como partícipes ativos deste. Então não é estranho voltar ao filme de Zózimo, já próximo ao final, e pensar no corpo negro outrora escravizado, de jaleco. Na TV, uma manifestante, diante do supermercado, fala algo tipo: “esperamos a vacina para o covid-19, mas a do racismo é mais urgente”.

Como diria Jurema Werneck, “nossos passos vêm de longe”. Que essa frase, tão ecoada por ativistas pretas e pretos, seja uma pista de que, assim como o saber está lá atrás, a consciência só se amplifica, se atualiza, mas que ainda precisa atingir a todos para extinguir o auto-ódio e tornar a maioria numérica como referência a ser considerada e seguida.


* Clementino Junior é Cineasta, Cineclubista, Educador Audiovisual, Pesquisador e Doutorando em Educação do GEASur/Unirio, e Fundador do CAN — Cineclube Atlântico Negro.


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