ISSN 2764-8494

ACESSE

Outras Educações
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Pedagogia das encruzilhadas | Exu como Educação

O artigo A Pedagogia das encruzilhadas, Luiz Rufino – publicado na Revista Exitus da UFOPA – é um desses textos maravilhosos que muita gente gostaria (e deveria) ler, mas não consegue, porque não acha ou porque precisa atravessar os portões gigantes dos repositórios e jornais acadêmicos e suas fechaduras e cadeados invisíveis.

Por isso, engajados na nossa missão de sermos ponte para o diálogo de saberes para um novo tempo, estamos publicando um breve resumo e o primeiro capítulo do artigo – que ao todo tem apenas 28 páginas, para dar aquele gostinho do amendoim na mesa do bar, como um convite à sua leitura completa. Só dando uma provadinha nesse amendoim em cima da mesa você vai entender por que estamos incluindo essa amostra/convite na curadoria Outras Educações da Revista Pluriverso.

Um pequeno resumo

No artigo, o Educador e pesquisador Luiz Rufino, relata como, na cultura iorubá e nas suas múltiplas inscrições na diáspora africana, Exu emerge como princípio explicativo de mundo sobre o acontecimento, comunicação, linguagem, invenção, corporeidade e ética.

Nesse sentido, considerando que os domínios do orixá são também comuns ao fenômeno educativo, podemos, a partir de um giro enunciativo, perspectivar uma educação referenciada por ele.

Assim, na emergência de processos educativos e proposições curriculares antirracistas e decoloniais é que ele lança mão da Pedagogia das Encruzilhadas, um projeto político/epistemológico/ético que tem Exu como fundamento teórico/metodológico.

Por entender que a decolonialidade se constitui enquanto ação e demanda outras presenças, conhecimentos e gramáticas, ao escrever esse artigo, Luiz Rufino investe na crítica às obras coloniais que regimentam a educação não como prática emancipatória, mas como forma de regulação.

A reflexão também investe no apontamento de outras possibilidades de problematização da educação, a partir de referenciais éticos/estéticos historicamente produzidos como não credíveis pela razão dominante e suas políticas de conhecimento.

Mas vamos ao texto em si, que abre a introdução do artigo A Pedagogia das Encruzilhadas.

Abram-se caminhos para o senhor do movimento

Arte disponível na internet

A educação é um fenômeno plural, inacabado e dialógico. Dessa forma, os processos educativos são vividos das mais diferentes maneiras, revelando inúmeras presenças, conhecimentos, gramáticas e contextos possíveis. Desde que nascemos, estamos lançados à educação enquanto experiência, cultura e modo de sociabilidade. A mesma está fundamentada na condição do ser e no exercício de sua existência, sendo ela um labor que se constitui de forma polifônica e comunitária. Reconhecer a pluralidade de formas de praticar a vida nos faz lembrar que a educação configura-se com um ato de responsabilidade. Assim, esse ato nos lança no movimento de sermos interpelados e convocados a dar respostas ao outro, que mesmo sendo diferente habita em mim e dá o acabamento do que sou e da travessia que faço no tempo. Refletindo sobre a educação na interlocução com o pensamento de Bakhtin (2010, 2011) e de Amorim (2004), a circunscrevo como sendo um acontecimento humano, imbricado entre as dimensões da vida, arte e conhecimento.

A reflexão que proponho é que sendo a educação uma questão pertinente à vida (dimensão ontológica e ética), à arte (dimensão ética e estética) e ao conhecimento (dimensão epistemológica), por que grande parte da população ao ser questionada sobre educação, principalmente no que tange à escola, tem tendência em utilizar argumentos conservadores que credibilizam ações pedagógicas que operam em prol da redução das experiências sociais? Nesse sentido, a educação, que a princípio está radicalizada na diversidade do ser acaba se inscrevendo como política de produção de um modo dominante. Essa lógica totalitária investida e mantida ao longo de séculos tem pautado a educação, não como uma prática emancipatória, mas sim como forma de regulação. Essa lógica travestida de educação revela-se como mais uma face das ações assentes no empreendimento colonial, que tem na raça/racismo/gênero/heteropatriarcado/capitalismo os seus fundamentos.

Dessa maneira, o mais plausível é que ao invés de falarmos em educação, como modo único, possamos falar em educações, atentando que a mesma palavra pode agrupar sentidos opostos. Nessa perspectiva, devemos lembrar que na experiência social se educa para os mais variados fins. Considerando que a educação é em sua radicalidade um ato de responsabilidade, o projeto colonial sendo um espectro de mentira e violência como mencionou Césaire (2008), vem ao longo de séculos praticando atos irresponsáveis. Assim, podemos considerar que o colonialismo empregou ao longo do tempo investimentos na formação dos seres. Esse padrão, que podemos problematizar como uma espécie de educação a serviço da dominação, forjou imaginários, repertórios, subjetividades e manteve o ser/saber sobre o regime discursivo da política colonial. Assim, esse padrão formativo de atos contrários à diversidade, é também contrário à vida e por isso produtor de injustiças cognitivas/sociais. Nesse sentido, o combate e a transgressão às obras e efeitos do colonialismo/colonialidade são demandas de caráter educativo enquanto prática de liberdade (FREIRE, 1996), pois têm como emergência o reposicionamento dos seres diante a tragédia colonial.

Nessa perspectiva, destaca-se a necessidade de uma agenda política que denuncie os vínculos e impactos da colonialidade na educação e proponha formas de transgressão a esse modelo. Assim, ressalto três pontos emergenciais: o primeiro é a defesa de que a problemática da política do conhecimento é também étnico-racial, o segundo é o fortalecimento de um modo de educação intercultural e o terceiro são as elaborações de pedagogias decoloniais. Na busca por atar esses três pontos em uma proposta educativa é que lanço a Pedagogia das Encruzilhadas (Rufino, 2018) como projeto político/poético/ético. Essa pedagogia busca trazer questões e pluriversalizar (RAMOSE, 2011), a educação no contexto da colonialidade, desde a formação dos profissionais até a produção de questionamentos sobre as práticas pedagógicas exercidas na escola. A principal força desse projeto é trazer Exu como disponibilidade, matriz/motriz política/ética/estética/epistemológica/teórica/metodológica. Nesse sentido, ressalto que Exu foi ao longo do tempo invisibilizado/descredibilizado por parte da colonialidade/modernidade-ocidental, pois é um princípio que confronta suas lógicas de dominação e violência.

Sendo Exu o princípio, domínio e potência referente à linguagem como um todo, não restrita às formas discursivas, mas como a própria existência em sua diversidade. Sendo ele o dono do corpo, suporte físico em que é montado por experiências, cognições e memórias e sendo ele o princípio da imprevisibilidade e do inacabamento do mundo, venho dizer que Exu é também a força motriz que concebe a educação e as práticas pedagógicas. Assim, reivindicando ele como forma de educação, ele também estará a questionar sobre como responderemos aos outros nesse labor que deve primar pela ética e coletividade. Em um dos caminhos de Ifá, Exu é aquele que destrona a arrogância dos sábios, fiscaliza os atos e compromissos firmados com a comunidade e celebra a vida proporcionando alegrias aos justos. Uma educação, pedagogia, escola ou currículo que busque firmar compromisso com a diversidade e combater as injustiças cognitivas/sociais haverá de abrir caminhos para Exu passar.

E tem mais

Símbolo Adinkra para sankofa


Sentiu o gostinho? Tem mais! Bom, a essa altura é bom esclarecer que, mesmo sendo escancarada nossa rasgação de seda, esta não é, nem de longe, uma matéria paga para fazer propaganda do trabalho do Rufino. É simplesmente um convite sincero à partilha de uma reflexão que traz à tona saberes pra lá de pertinentes para (re)pensarmos a educação que queremos, e até, uma pequena homenagem a um parceiro, alguém da mesma tribo, como dizem alguns, ou da mesma enfermaria, como gostam de dizer outros, e com certeza, da mesma luta.
Voltando ao que interessa, é claro que um conceito da complexidade e potência da Pedagogia das Encruzilhadas não iria render apenas um artigo acadêmico. A Pedagogia das encruzilhadas é também o nome de um livro delicadamente escrito por Luiz Rufino, um livro que, em cada uma das suas mais de 160 páginas, nos lembra que a descolonização é, ou deveria ser, muito mais do que um conceito. Ao , um fazer-pensar contínuo de transformação, um fazer-pensar sankofa que, no seu percurso, de um diálogo profundo com sujeitos por séculos submetidos a um silenciamento epistémico, sujeitos coletivos sempre referenciados em terceira pessoa pelos donos da palavra na ordem colonial, relê memórias ancestrais, reinventando presentes, que é o que temos para caminhar juntos, reencantando o mundo. Nada mais próximo do sentido de uma poética do Sul Global.


LUIZ RUFINO é carioca, filho de pai e mãe cearenses, doutor em Educação. Desenvolve pesquisas sobre culturas brasileiras e tem nas esquinas, rodas, ruas, brincadeiras e matas suas principais fontes de interlocução. É professor da FEBF/UERJ e autor de diversos livros, além de “Pedagogia das Encruzilhadas” (Mórula, 2019), como “Fogo no Mato: a ciência encantada das macumbas” (Mórula, 2018) e “Flecha no Tempo” (Mórula, 2019), ambos em parceria com o historiador Luiz Antonio Simas, e Arruaça, uma filosofia popular brasileira (Bazar do Tempo, 2020), com eles dois e Rafael Haddok-Lobo.

(*) Claudio Barría é Doutor em Educação, pesquisador, diretor de arte, pai e Editor Chefe da Revista Pluriverso.

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