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Artes
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Psicopatologia e Literatura Ep.2: Hubris, O verdadeiro Calcanhar de Aquiles

A série de Podcast Psicopatologia e literatura idealizada por Adriana Costa agora na revista Pluriverso. Você pode acompanhar aqui, no seu app de podcast preferido ou no blog da Dri. Porque aqui é assim, partilhado, diverso e colaborativo.

Por Adriana Costa

Ouça ou leia, ou leia e ouça…

No segundo episódio do Podcast Psicopatologia e Literatura, Hubris surge com o verdadeiro Calcanhar de Aquiles. A Ilíada apresenta claramente o problema da indulgência e da ambição que quebra a ordem e leva o homem à perda de seu lugar e medida no mundo.

A impiedade é o fruto deste ato e a tragédia a consequência de sua hybris (ὑuβρις)Cabe aqui não esquecer a admoestação do preceptor de Aquiles, o sábio Fênix no Canto IX.

“ Por isso, ó Aquiles, domina o teu espírito orgulhoso. Não te fica bem um coração insensível. Os próprios deuses cedem, eles que tem maior valor, honra e força. Com incensos, juramentos cheios de reverência, libações e aroma do sacrifício os homens conseguem propiciá-los, quando alguém erra ou transgride.”

Aquiles e seu Calcanhar

Domar seu thymos, a capacidade de auto-governo, uma disposição de “agir voluntariamente, mas contra a vontade do thymos”.

Não há nenhuma contradição dentro do mesmo órgão, mas entre o homem e seu órgão, que apoiado pelos dons dos deuses, o homem doma este ânimo.

Assim, a força de auto-superação e apropriação da realidade é o que distingue um spoudaios – homem maduro que se recusa a uma existência desordenada (bios theoretikos). É esta virtude intelectual o que permite ao homem dirigir-se a si mesmo enfrentando sua cólera (menis: termo épico solene aplicável a qualquer ira divina ou humana). A Ilíada é um canto sobre o perigo da cólera:

“Pélida mortífera, que tantas dores trouxe aos Aqueus e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades”

E Caroline Alexander , em seu livro “The War that killed Aquiles” aponta para uma crise de legitimidade (onde o sacrifício se torna vingança) , expressa na Ilíada, que é no seu entender, um épico marcial:

“…talvez seja a declaração de Homero que os velhos valores heróicos encobertos em sua prolixidade amorfa não são mais relevantes. Com sua rejeição cabal aos presentes convencionais, aos apelos convencionais e acima de tudo ao código de honra convencional, Aquiles adentrou um novo terreno onde as histórias sobre o que motivava os homens de antigamente – kléa andron – não tem mais força” 

Porque Aquiles mata de uma vez só, vários troianos e enche o rio Escafandro, (também denominado Xanto) de cadáveres. O rio, indignado, toma a forma humana e diz que Aquiles supera todos os homens em ações ímpias.

‘’Se te concedeu o Crônida chacinares todos os Troianos, ao menos escorraça-os para fora da minha corrente e pratica a carnificina na planície. Minhas correntes amoráveis estão cheias de cadáveres, nem consigo derramar minhas águas no mar divino, pois está tudo entupido com os corpos que tu mataste sem piedade. Agora deixa-me em paz. O espanto me domina, ó senhor das hostes”

Logo, esta acusação de impiedade mostra a exaltação da violência, como uma intoxicação de Aquiles com seu próprio poder e grandeza – uma megalomania. A expressão “mega phronein”– pensar grande costumava ser utilizada pelos gregos com um significado pejorativo – de presunção e arrogância. Aquiles não vê mais valor no código de honra convencional. Como diz o rio:

“Ó Aquiles, aos homens supera na força e no mal que praticas”

E é importante lembrar que Homero escreveu durante o desvelamento do conceito de Psique. Ele observou a correlação entre a desordem da sociedade e a desordem da alma individual e iniciou um caminho de investigação das doenças ônticas (espirituais). Vale pontuar que para o mundo Homérico não existe uma distinção entre alma e corpo, entre o intelectual e o afetivo. Para falar com exatidão , eu deveria dizer: o que interpretamos como alma, o homem homérico interpreta como se aí houvesse três entidades, o que ele concebe segundo analogia dos órgão corporais. As paráfrases para psyche, nous e thymos como órgão da vida, do pensar e das emoções anímicas.

“Mas agora o deixemos: que parta ou que fique. Novamente combaterá, quando o coração no peito o mandar e uma divindade o incitar” 

Assim vemos que a motivação para a ação do herói é dupla, simultaneamente individual e divina.

“Os impulsos internos do ser humano e a intervenção divina se fundem na mesma ação, que é motivada em ambas as esferas”

Pois a garantia da ação humana só pode ser mediante a garantia fornecida pela divindade. 

“Enquanto isto pensava no espírito e no coração, tirando a espada da bainha, chegou Atena, vinda do céu. Mandara-a a deusa Hera de alvos braços,pois a ambos ela estimava e protegia no seu coração.Postou-se atrás dele e agarrou no loiro cabelo do Pélida, visível apenas para ele. Nenhum dos outros a viu.Espantou- se Aquiles ao voltar-se para trás; e logo Palas Atena, cujos olhos faiscavam terrivelmente. E falando dirigiu-lhe palavras aladas ”  

(Canto I, 193 -201)

O brilho terrível do olhar da jovem de claros olhos (glaukopis) representa , aqui a clareza de ação, e a proximidade de Aquiles com essa deusa indica o seu acercamento da atitude inteligente, reflexiva, que não se dá pelo impulso, pela imediatez mas pela ponderação e, pelo exame atento da ocasião. O espanto (thambós) , reação decorrente, aqui do contato direto – o reconhecimento imediato da divindade; e a exclusividade de sua aparição, a deusa lhe veio conter o furor (menós) e aconselha a abandonar a fúria e guardar a espada. Chama por sua disposição a razão, para que largue os seu sofrimento vivencial e desmedido (impiedade) e controle sua hubris, elevando seu sofrimento a uma possibilidade racional (sentido de proporção).

Em Homero, thymos é órgão anímico – espiritual que suscita os movimentos e as reações um princípio do movimento. É o órgão das emoções anímicas, sede da alegria, do amor ,da compaixão. Uma dor corrói ou ataca o thymosabalando portanto a capacidade do homem para agir.

Aqui cabe portanto a prudência de se recolher, retomar o juízo antes de exercer seu poder. Esta busca por um saber ou poder sobre–humano, esta megalomania é o que Homero apresenta como impiedade (asebia).
Aristóteles retoma a importância deste regime da inteligência, da phrônesis como a disposição a um pensamento humanizado, ou seja que;

“tem dimensões benevolentes visto que pode-se pensar as coisas divinas humanamente, ou seja com reserva e sentimento de distância”

A Prudência não é uma ciência, um corpo de conhecimentos, mas uma prática, uma constante aquisição, uma habitude da alma. Um saber que suspeita de seus próprios malefícios e tem consciência de seus limites. Como declara Pierre Auberque em seu estudo sobre a prudência em Aristóteles:

“…organizar o humano é o sublunar, é uma tarefa grande para o homem, guiado sobretudo pela sabedoria, ou seja, pela contemplação distante do divino: liberto de esperanças vãs, de ambições desmesuradas, voltado à tarefas reais, embora sempre guiado pelo horizonte do transcendente, o homem é convidado a cumprir no interior de sua condição mortal, o que ele sabe, no entanto, não pode cumprir como tal.” 

A questão da Impiedade (perda do limite do humano) , como uma raiz do problema da angústia, traz uma dimensão metafísica ao problema . A perda da fundamentalidade da existência; modo como sente a personalidade aquele que se perdeu na complexidade de sua vida.  Este é o caso de Aquiles, que não escuta o mestre e usa seu orgulho ferido como medida de justiça.

As dificuldades da tradução comentada pelo autor : Frederico Lourenço

Sugestão de leituras complementares :
A descoberta do espírito – Bruno Snell das Edições 70
A prudência em Aristóteles – Pierre Aubenque – Editora Paulus


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