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ACESSE

Artes
Seu tempo de leitura: 4 minutos

Psicopatologia e literatura Ep.6: Hanna Wendling e as torções da alma

Por Adriana Costa

Ouça ou leia, ou leia e ouça…

Hanna Wendling é uma personagem de contraste na narrativa de Broch; ela vive sua rotina de dona de casa como se a guerra não existisse e mora numa mansão que se destaca impávida, frente às construções decadentes e ao ambiente de ruína da cidade.

Esposa do doutor Henrich Wendling, que estava “havia dois anos na Romênia, ou na Bessarábia”, ela vive com os criados e seu filho numa espera que a corrói intimamente, e é esta vulnerabilidade psíquica que Broch vai detalhar nesse trecho magistral :

“Contemplada de fora, a vida de Hanna Wendling deveria ser descrita como a de um ócio em meio a uma situação estável – e, estranhamente, contemplada também de dentro. É bem provável que ela mesma não tivesse descrito a situação de modo diferente. Era uma vida que pendia como um fio de seda frouxo entre o ato de se levantar pela manhã e o ato de se deitar à noite, um fio frouxo que chegava a se enrolar de tanta falta de tensão, A vida em sua variedade de dimensões perdia, naquele caso especial, uma dimensão após a outra, sim ela mal preenchia as três dimensões do espaço; até se poderia dizer com propriedade que os sonhos de Hanna Wendling eram mais plásticos e mais cheios de sangue do que sua vigília. No entanto, por mais que essa também pudesse ser a opinião de Hanna Wendling, ela não atingia o âmago da questão, pois apenas iluminava as condições macroscópicas da sua existência de mulher ainda jovem, ao passo que mal detectava algo acerca das microscópicas que são as verdadeiramente importantes : nenhum ser humano sabe algo acerca das estruturas microscópicas de sua alma e com certeza é bom que seja assim. No presente caso, debaixo da frouxidão visível da conduta vital havia uma tensão constante dos elementos individuais. Se pretendesse cortar um pedaço bastante pequeno do fio aparentemente frouxo, se descobriria nele uma torção monstruosa, uma convulsão de moléculas, por assim dizer. O que se manifestava disso tudo e se tornava visível por fora poderia ser esboçado do modo mais usual com a palavra “nervosismo”, na medida em que se compreenda a guerrilha aniquiladora que o eu deve desenvolver a cada instante, por mais ínfimo que seja, contra aquelas partes minúsculas do eu empírico com as quais sua superfície entra em contato. Mas, ainda que isso se encaixasse bastante no caso de Hanna, a tensão, a tensão peculiar do seu ser não residia na impaciência nervosa diante dos acasos da vida, mesmo que esses acasos se fizessem perceber apenas no pó dos seus sapatos envernizados, ou na pressão dos anéis em seu dedos, ou talvez apenas numa batata que ainda não estava completamente cozida. Não, não era esta a questão, pois tudo isso tinha um breve e brilhante movimento, era como o cintilar de um espelho d’agua ao sol batido de leve pelo vento, e ela não gostaria de prescindir disso, pois de algum modo isso a protegia do tédio. Não, não era disso que se tratava, e sim da discrepância entre essa superfície de sombreamento tão variegado e o fundo oceânico imóvel e inabalável de sua alma, que se estendia tão profundamente debaixo de tudo que jamais poderia ser vislumbrado: era a discrepância em cuja infinitude se disputa o mais tenso da alma, a incomensurabilidade entre o lado anverso e reverso do crepúsculo, uma tensão sem equilíbrio, até se poderia dizer uma tensão flutuante, uma vez que de um dos lados se encontrava a vida e do outro a eternidade, que se constitui o fundo oceânico da alma e da vida.Era uma vida em grande parte esvaziada de substância e talvez por esse motivo uma vida sem importância. Que se tratasse da vida da esposa insignificante de um insignificante advogado provinciano não chega a pesar muito na balança, pois a questão do significado dos destinos humanos está longe de ser especialmente antiga. E, ainda que o peso de uma desocupada em uma época cheia de horrores da guerra deva ser avaliada como bem insignificante, não se pode esquecer que, entre aqueles que aceitaram sobre seus ombros, voluntários ou forçadamente , o cumprimento heróico das obrigações guerreiras, quase todos teriam gostado de trocar seu destino ético pelo aético de uma desocupada. E talvez, mesmo que apensas talvez, a paralisia que passou a tomar conta de Hanna Wendling com a guerra que avançava e se tornava cada vez mais intensa não fosse mais do que a expressão de um pavor altamente ético acerca do horror ao qual a humanidade se via entregue. E é possível que esse pavor já tivesse crescido tanto dentro de Hanna Wendling que ela mesma também não pudesse mais dar conta dele “

Com o passar do tempo cresce em Hanna um torpor físico e anímico.

“Não apenas perdera toda e qualquer sensação de tempo e de velocidade, era uma diminuição da torrente vital, mas não seu represamento, e sim muito antes uma evaporação e uma condensação no nada, um infiltrar-se num chão completamente poroso, um desaparecer e um esquecer do que acabava de ser pensado” 

Milan Kundera em um entrevista fala sobre este estado de vertigem como uma :

“embriaguez causada pela nossa própria fraqueza. Temos consciência de nossa própria fraqueza, mas não queremos resistir a ela, e sim nos abandonar. Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza , queremos ser mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua , à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão”

Este corpo sem energia, esta pesarosa existência tem um caráter simbólico vinculado diretamente a estrutura informacional da realidade, e confirma que as depressões estão intimamente ligadas à musculatura tônica e a dificuldade de encontrar o equilíbrio das tensões.

No caso relatado de Hanna o escritor aprofunda esta relação apresentando a Guerra como um segundo rosto no qual a personagem reconhece sua impotência e sua dissolução:

“Era um desmoronar do mundo, um rosto noturno se dissolvendo em cinzas frias e bem leves, e era o desmoronar do seu rosto, era como aquele desmoronar que ela sentia …”

Dica de leitura : 

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