Respostas do fórum criadas

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    Kito Nicácio

    Membro
    17 de julho de 2025 em 15:33 em resposta a: Histórias pessoais para narrativas de campanha

    Kito Kiese significa “joia da alegria”, nome bantu de um batismo tardio múltiplo: foi em casa, foi no terreiro de Angola (muitos irmãos detestaram, pois parece uma dijina), foi na roça do Goiás da minha vó. Minha família paterna é judia sefardita; vieram da Holanda fugindo da inquisição. Por parte de mãe, portuguesa e quilombola do Kalunga. Enfim, Kito é o nome que se dá para um filho que foi muito desejado; significa “querido”. Significado que nem sempre mantenho, pois a minha vida foi de muitos embates e desde sempre aprendi a ser mais bruto e direto para viver, pois na real sou relaxado e não me irrito fácil. Isso serve desde o ensino fundamental na escola pública da Ceilândia, periferia do DF, até as ruas de Stavanger, no sul da Noruega, onde fui morar na adolescência enquanto corpo-migrante no Norte Global. Morar lá me ajudou a pensar o local em conjunto com o global e perceber quão próximo tudo é. O planeta é um só. E todas as nações e principados estão mais próximas que distantes.

    Enfim, o terreiro é o centro do meu mundo faz alguns anos. Perceber as violências que passávamos, desde assaltos consecutivos, falta de infraestrutura, falta de espaço para o culto. Foi no intervalo de perceber o que é adentrar uma cultura diferenciada que parti a pensar alimentação, conexão com a terra, questões climáticas, pois somos diretamente afetados como comunidades dependentes da natureza para nossa tradição. Nem imagino o que é viver sem perceber a sacralidade que mora no que chamamos de coisas. Como os ritos ensinam em diferentes níveis.

    Ser de terreiro, PCT, corpo-migrante e outras coisas mais, além de nos colocar em lugares marginais na estrutura do mundo contemporâneo, também constrói uma contraestrutura. Uma alternativa. Estudar a esperança, enquanto internacionalista, tem sido minha matriz para entender e prosseguir no mundo que quer dizer que é fim. Pelo acaso sacro, este também é o enrendo do meu santo de cabeça: Jagun.

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      Kito Nicácio

      Membro
      30 de julho de 2025 em 13:15 em resposta a: Histórias pessoais para narrativas de campanha

      Atualizando — Falando sobre o terreiro

      Minha casa, o Ilé Asé Ojuina Sorokê Efon foi fundado em 16 de agosto de 2002, em Brasília, pelo Babalorixá Veber de Soroke e conta hoje com quase 100 integrantes e tem espaço pra mais.

      Temos raízes no Terreiro Oloroke da Bahia, que estabeleceu a nação Efon. A casa tem essa ligação direta com ancestrais escravizados. Nosso trabalho é ser um dos principais guardiões e mantenedores dessa tradição que é rara no Brasil. Nosso orixá patrono é Olorokê, também conhecido como Olooke, é o mestre das montanhas. A representação de Olorokê está intimamente ligada à árvore Ose (Baobá), cujas características de altura, solidez e longevidade fazem dela o símbolo escolhido por Olorokê para seu culto. No Brasil, onde há poucos Baobás, Olorokê é cultuado ao pé da gameleira branca, que também serve como local de culto para Iroko, embora sejam divindades distintas. Olorokê é o guardião de muitos povos em Ekiti, na Nigéria, onde estão localizadas as maiores rochas sagradas para seu culto. Ele participa dos festivais de Yeye Olokun e de Obatala, e sua presença é marcante em toda a tradição religiosa. Nossa casa possui tanto uma gameleira branca quanto um assentamento externo para cultuo de pai Oloroke.

      A espiritualidade dentro dos terreiros de Candomblé é integrada profundamente com a sustentabilidade. A natureza é sagrada e acambamos fazendo a preservação dos ecossistemas locais. O cultivo de plantas utilizadas nos rituais no próprio terreiro ou em áreas próximas e a coleta de ervas e plantas é feita de maneira que permita a regeneração da vegetação. Além disso, as práticas de compostagem para restos orgânicos, reciclagem de materiais para utilidade sagrada. Por nossa cultura diferenciada acabamos por estabelecer conexões com mercados de produtos locais, criadores de animais, comerciantes estrangeiros de países africanos. Quando não possível fazemos tudo para criar e multiplicar em casa. Muitos terreiros rurais mantêm áreas de mata nativa, que funcionam como verdadeiros refúgios de fauna e flora. Essa preocupação é uma extensão do respeito à terra e à vida, que são valores centrais na cosmovisão do candomblé. A transmissão de saberes tradicionais sobre o uso das plantas medicinais e práticas agrícolas sustentáveis fortalece as comunidades, promovendo a autossuficiência e a valorização do conhecimento ancestral. Essa integração entre tradição e sustentabilidade não só preserva a cultura afro-brasileira, mas também contribui para o desenvolvimento sustentável das áreas rurais.

      Nosso Ilé fez um Inventário Faunístico Florístico de sua área destinada a conservação e preservação de floresta nativa, localizada no município de Brasília-DF. Esse documento mostrou que preservamos uma área de 5 hectares de Cerrado, desde sua fundação em 2002. Algo que vai na contra-mão das diretrizes governamentais e privadas de extremo desenvolvimento urbano de Brasília.

      Entre os fazeres culturais do terreiro, ressalto os ensaios de toque do Ogã Kaybe Burlamaqui de Ayrá, realizados todas as terças-feiras. Esta prática é muito importante pois representa um apoio para preservar a língua, ritos, rum e toques que diferem de outras nações, mantendo viva a especificidade da tradição Efon. Algo de muito valor, pois as vezes tem cantiga que só ele sabe e faz questão de passar pros mais velhos.

      Nosso ano é feito de festa. São umas 12.

      Agora teremos o Olubaje, para pai Obalwaye, rito de manutenção e respeito a terra.
      Setembro terá Samba de Viola do Caboclo Boiadeiro 7 Chapadas, Fogueira de Sango. Em outubro tem Caruru de Ibeji, celebrando a infância e tudo que está pra nascer. Dezembro tem o balaio, Ajodun e Ipete de Osun que em um de seus temas importantes é o agrado a fertilidade e matrigestão das aguas e terras férteis. Nossa ano de festa recomeça em fevereiro com as Aguas de Osala, Festa da Pombagira Dona das Rosas. Em maio temos a festa do Exu Seu 7 Porteiras e festa anual dos Oloodes, onde se festeja a fartura da caça. Por fim em junho tem o Ajodun de Sorokê, o orixá patrono da casa. No meio disso tudo tem iniciação. Pessoas tomando obrigação, toques de umbanda, consulta de búzios, ebó e ainda mais outros ritos. Tudo isso depende muito da comunidade. Por isso tem um trato que é ”Ajẹjẹ́ ọ̀wọ́ kan kọ̀ gbé igbá orí” (Uma só mão não levanta uma cabaça na cabeça.)

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      Com detalhes:

      Sobre o nosso Orixá Patrono

      O Orixá Olorokê tem importância que remonta aos tempos da criação. Olorokê simboliza a primeira ligação entre Orun e Aiye (Céu e Terra), sendo a primeira terra firme que emergiu do fundo do mar a pedido de Olodumare, com a ajuda de Oroinã e Olokun. Segundo o mito da criação, no princípio do mundo, apenas Yeye Olokun, a deusa do oceano, e Olodumare, o Deus supremo, dominavam as águas que cobriam toda a Terra. Sentindo-se entediado com a uniformidade aquática, Olodumare ordenou a Oroinã, o Fogo Universal e força vital da existência, que criasse a primeira montanha. Assim, uma colina emergiu como um vulcão em erupção, com lava vulcânica trazida das profundezas da Terra. Esta lava foi resfriada por Olokun, resultando na criação de Olorokê, a montanha sagrada e divindade conhecida como o senhor das montanhas.

      O mito continua com Olokun, que, sentindo-se prejudicada pela criação da Terra, tentou recuperar seu espaço, invadindo as terras já formadas. Muitos seres criados foram tragados pelas águas de Olokun. Em resposta, Olodumare ordenou a Oroinã, Aganju, Igbona e Olorokê que formassem uma cadeia de montanhas para isolar Olokun em seu domínio. Enfurecido com a resistência de Olokun, Olodumare a condenou a viver nas profundezas do oceano, onde foi acorrentada e acompanhada por uma grande serpente marinha, que servia como sua mensageira. Olorokê estabeleceu vários locais de culto, sendo Okiti Ikole sua cidade principal, onde é adorado em um grande Baobá.

      No Brasil, o culto a Olorokê é relativamente raro e poucos sacerdotes possuem o Igbá (assento) de Olorokê, principalmente devido à falta de conhecimento e tradição específica sobre este culto. Contudo, no Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon, há a alegria e o privilégio de ter um assentamento dedicado a Olorokê, junto com sua árvore sagrada, o Baobá. Esse assentamento foi generosamente concedido pelo Babalorixá Carlos de Logunedé. A presença de Olorokê no espaço é uma forma de honrar e manter viva sua tradição, mesmo em um contexto onde o conhecimento sobre ele ainda está se expandindo.

      A espiritualidade dentro dos terreiros de Candomblé é integrada profundamente com a sustentabilidade. A natureza na tradição afro-brasileira é vista como sagrada, verdadeiras manifestações dos Orixás. Essa relação intrínseca com a natureza promove práticas sustentáveis fundamentais para a preservação dos ecossistemas locais. O cultivo de plantas utilizadas nos rituais no próprio terreiro ou em áreas próximas e a coleta de ervas e plantas é feita de maneira que permita a regeneração da vegetação. Além disso, as práticas de compostagem para restos orgânicos, reciclagem de materiais, e utilização de embalagens biodegradáveis minimizam o impacto ambiental.

      Após a criação de Olorokê, Olodumare reuniu todos os Orixás Funfun na montanha e atribuiu a cada um deles um domínio na criação da vida. Os primeiros a chegar foram Obatala e sua esposa Yemu, seguidos por outros Orixás Funfun, como Akafojiyan e seu irmão Danko, que se estabeleceram nos bambuzais brancos. Também chegaram Ogiyan, Olufon, Osafuru, Baba Ajala, Olufande e Orixá Ikere, entre outros. Cada um desses Orixás recebeu de Olodumare uma função na Terra, mas sem Olorokê, nenhuma divindade teria descido ao mundo. Como a primeira terra firme, Olorokê é a base de toda a criação. Ele é inseparável de Obatala e reverenciado como a força e guardião de todos os Orixás.

      A representação de Olorokê está intimamente ligada à árvore Ose (Baobá), cujas características de altura, solidez e longevidade fazem dela o símbolo escolhido por Olorokê para seu culto. No Brasil, onde há poucos Baobás, Olorokê é cultuado ao pé da gameleira branca, que também serve como local de culto para Iroko, embora sejam divindades distintas.

      Sobre a Nação Efon

      A Nação Efon tem suas raízes na região de Efon Alaaye, no sudoeste da Nigéria, uma das mais antigas civilizações iorubás, com origens que remontam a Ilê Ifé, berço dessa cultura. No Brasil, a tradição Efon estabeleceu-se significativamente com a fundação do Asé Oloroke, também conhecido como “Asé Yangba Oloroke ti Efon” ou simplesmente Terreiro do Oloroke, que se tornou a matriz da Nação Efon no país. Este importante terreiro foi estabelecido na cidade de Salvador, Bahia, por Maria Bernarda da Paixão, conhecida como Iyá Adeboluie ou Maria Violão, e José Firmino dos Santos, chamado de Babá Irufá ou Tio Firmo Olufandeí. Ambos eram negros escravizados trazidos ao Brasil por volta de 1850, como parte da diáspora afro-atlântica. Tio Firmo era filho de Osun e iniciado em Ifá, enquanto Adeboluie havia sido iniciada em sua terra natal para o orixá Olookè.
      Mesmo antes de serem libertos, Tio Firmo e Maria Bernarda já desempenhavam papel ativo na preservação das tradições africanas, promovendo e participando de encontros religiosos. Eles também eram membros da Irmandade da Igreja da Barroquinha, importante ponto de encontro para os fundadores da Casa Branca do Engenho Velho. Relatos orais de pessoas antigas do Efon indicam que Maria Bernarda era prima da primeira Yalorixá da Casa Branca. Por volta de 1860, Tio Firmo e Maria Bernarda fundaram o Asé Oloroke no Engenho Velho de Brotas, onde o Asé de Oxun foi plantado. Este ato não apenas deu origem ao terreiro, mas também estabeleceu a Nação Efon no Brasil. Mesmo após a abolição da escravidão, a perseguição aos cultos afro-brasileiros continuou intensa, e Tio Firmo enfrentou várias prisões por sua fé. Após a assinatura da Lei Áurea em 1888, plantou-se a árvore do Iroko, símbolo primordial do terreiro.

      Tio Firmo faleceu por volta de 1905, deixando a liderança do terreiro para Iyá Adeboluie, que se tornou a mãe de santo da casa. Ela foi responsável por iniciar várias figuras importantes, como Mãe Milu, Matilde de Jagun, Cristóvão Lopes dos Anjos de Ogun Já, Celina de Yemonja, Paulo de Sango e Crispina de Ogun, entre outros. À medida que Adeboluie envelhecia, Mãe Milu, Matilde de Jagun, e o filho carnal de Matilde, Cristóvão de Ogun Já, assumiram responsabilidades crescentes no terreiro, todos eles iniciados por Adeboluie, que faleceu em 1935. Com sua morte, Matilde de Jagun passou a liderar o Asé Oloroke.

      Em 1947, Cristóvão, que até então estava com sua mãe no terreiro Oloroke em Salvador, decidiu levar a tradição Efon para o Rio de Janeiro. Após desentendimentos com sua mãe, mudou-se para Duque de Caxias, acompanhado de alguns filhos de santo, e em 1950 fundou o Ilê Asé Ogun Anauegi Igbele ni Oman, conhecido como Asé Pantanal. Infelizmente, o antigo terreiro Asé Oloroke, em Salvador, não existe mais. No local onde se situava, no número 12 da Travessa Antônio Costa, no Engenho Velho de Brotas, hoje funciona uma oficina de carros. No entanto, em Duque de Caxias, o legado de Pai Cristóvão continua vivo. Ele liderou o Asé Pantanal até seu falecimento em 1985. Após sua morte, em 1994, sua neta carnal, Mãe Maria de Xangô, assumiu a liderança do terreiro, onde permanece até os dias de hoje.

      A genealogia espiritual do terreiro tem início com Iyá Adeboluie, que iniciou Cristóvão de Ogunjá em 1913. Cristóvão, junto com seu filho de santo Pai Sergio de Obaluaê, deu continuidade à tradição, iniciando Seu João Dofono de Sorokê em 1968. Este, por sua vez, transmitiu seus conhecimentos e iniciou a Iyálorisá Neuri de Ogunjá em 1978, que em 1994 foi responsável por iniciar o Pai Veber de Sorokê.

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    Kito Nicácio

    Membro
    10 de julho de 2025 em 20:33 em resposta a: Narrativas para campanha!

    Argumentos da campanha:
    1. Embora importantes para a constituição e continuidade do Brasil, PCTs são invisibilizados enquanto sofrem violências múltiplas.
    2. PCTs são vitais para a cultura e modo de viver do Brasil
    3. PCTs são vitais para justiça climática e esperança por futuros melhores

    Mensagens

    1. Somo Muitas Terras e Águas;
    2. Nossa Chão, Nosso Clima, Nossa Vida;
    3. Vamos Sempre-Vivas;
    4. Por futuros solares
    5. Somos o Inteiro Brasil
    6. Não há nada novo sob o sol, há novos sois.

    Sugestão de nome da campanha

    Grande Brasis
    Justiça de Ser-Vivo
    Inteiro Brasil
    Saber do Chão

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    Kito Nicácio

    Membro
    10 de julho de 2025 em 20:46 em resposta a: Narrativas para campanha!