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Psicopatologia e Literatura Ep.3: A orgia perpétua, uma conversa com Flaubert

A série de Podcast Psicopatologia e literatura idealizada por Adriana Costa agora na revista Pluriverso. Você pode acompanhar aqui, no seu app de podcast preferido ou no blog da Dri. Porque aqui é assim, partilhado, diverso e colaborativo.

Por Adriana Costa

” Eu estou prestes a recopiar, corrigir e rasurar toda a primeira parte de Bovary. 
Os olhos me doem. Eu gostaria de ler com um só golpe de vista estas cento e cinquenta e oito páginas e captá-las em todos os seus detalhes com um só pensamento” 

Gustave Flaubert, 1852.

O livro, Madame Bovary, é fruto de um árduo trabalho de cinco anos (1851 à 1856) e podemos acompanhar as oscilações de humor do escritor, seus desesperos e cansaços com o processo criativo, através de uma coleção de cartas deste período. O livro foi inspirado em uma duas histórias reais publicadas nos jornais da época. Flaubert ficou sabendo de um caso de suicídio na Normandia, cometido por Delphine Delamare após um adultério e da ruína  financeira de Louise Pradier, esposa de um escultor que Flaubert conhecia pessoalmente. 

A vida adjetivada de “orgia perpétua”, título de um livro de Mario Vargas Llosa sobre Madame Bovary, expressa não só o prazer que Flaubert tinha na vida de escritor, a volúpia do processo criativo, mas também o fôlego necessário para este embate amoroso com as palavras.
Flaubert é o mestre dos detalhes, todas as cenas de seus romances estão povoadas de uma miríade de objetos pertinentes.

Vargas Llosa atenta para esta humanização dos objetos na qual, ” certas coisas, como a casquette de Charles, são mais loquazes e transcendentes que seus donos e nos revelam, melhor que as palavras e os atos daqueles, a personalidade do proprietário: seu status, seus costumes, suas aspirações, sua imaginação, seu sentido artístico, suas convicções” 

Cada personagem é uma coleção de seres inanimados que alinhavados ao seu redor
configuram um microcosmo, uma atmosfera : corridas de cavalos, estatuetas Pompadour, relógios, tecidos, indícios da cultura no reinado de Luis Felipe.

Na carta de 26 de agosto de 1853 Flaubert explica :

” É preciso a um tempo não perder o horizonte de vista e olhar a seus pés. O detalhe é atroz, sobretudo quando se ama o detalhe como eu. As pérolas compõe o colar, mas é o fio que faz o colar. Ora enfiar pérolas sem perder uma só é sempre segurar seu fio com a outra mão, eis a malícia”

O trecho atenta que nenhum detalhe é excessivo. Tudo é pensado como num cenário e sua composição é feita de palavras justas e de um conjunto de objetos essenciais vinculados ao personagem, objetos que revelam os sentimentos dos protagonistas em cena. 

Flaubert criava roteiros para cada cena e trabalhava incansavelmente revendo mecanicamente a escrita.  O escritor experimenta com uma mestria sem igual a descrição e a narração dos seus eventos, que se cruzam , um exemplo é a cena da Feira Agrícola , no encontro de Emma e Rodolphe num efeito de complexa “montagem paralela” que o cinema retomará mais de meio século depois.

É uma “multidão aberta”, alegre e ordeira em dia de festa, um dia, diz a Bovary, “soberbo” com “toda a gente na rua” e “vento de leste”. O leitor, acompanha nos mais pequenos detalhes os movimentos das pessoas, os discursos a par e passo, os sons de gente e de música, mas o leitor sabe o que a multidão não sabe, que Rodolphe e Emma iniciam um affaire à vista de todos sem ninguém o ver.
Esta complexa descrição das circunstâncias vai envolvendo o leitor em uma experiência sensorial, mergulhando por todos os sentidos: tato, olfato, paladar , audição e visão.

Mario Vargas Llosa vê no consumismo de Emma um desafogo para a sua angústia, uma espécie de contrabalanço de sua insuficiência vital, como se pudesse anular o tédio de sua vida provinciana acumulando os pequenos troféus de uma vida de luxo. Penso que Flaubert é sutil e que seu romance buscava, como ele mesmo diz, apresentar um ethos, contextualizar uma problemática psicológica, declara na carta à Louise Collet de junho de 1852.

“Bovary (numa certa medida, na medida burguesa, tanto quanto pude, para que fosse mais geral e humana) será sob este aspecto, a suma da minha ciência psicológica e só terá um valor original desse ângulo.Será?Deus queira !”

Nesta perspectiva o romance pode funcionar como um arquivo clínico, escrutinando a vida cotidiana do período estudado através do registro dos hábitos, conversas, cheiros, fórmulas verbais, termos coloquiais, as nuances e as cores da linguagem num momento histórico, num modo de vida ou grupo social. Este aspecto contextual é fundamental se queremos realmente entender as motivações, o quadro de valores, as instabilidades emocionais, o dramas que  mobilizaram as decisões ou silêncios dos protagonistas. O escritor também declara na carta a amiga, sua profunda identificação com a obra, que funciona como uma espécie de exercício de anamnese:

“[…] Ainda tenho bastante coração para alimentar todas minhas obras. 
Não, eu não tenho saudade de minha juventude. Eu me entediava atrozmente! Sonhava com o suicídio. Devorava-me com todas as espécies possíveis de melancolia. 
Minha doença de nervos me fez bem; transportou tudo para o elemento físico e me deixou com a cabeça mais fria e me fez conhecer depois curiosos fenômenos psicológicos dos quais ninguém tem ideia, ou melhor, que ninguém sentiu. 
Eu me vingarei, utilizando um livro (o tal romance metafísico, com suas aparições, de que já lhe falei). Mas como se trata de um tema que me dá medo, em termos de saúde, é preciso esperar que eu fique bem longe dessas impressões para poder retê-las facticiamente, idealmente e, portanto, sem perigo para mim e para a obra!

Flaubert reconhece Madame Bovary como uma biografia, uma análise extensa do comportamento de Emma, através de descrições das oscilações sutis de humor e sentimentos e sua evolução e agravamento no decorrer do tempo. No dia 7 de fevereiro de 1857, Gustave Flaubert foi absolvido da acusação contra seu livro Madame Bovary, considerado imoral pelas autoridades francesas. 

Acusado de ofensa à moral e à religião, o processo foi movido contra o autor e o editor Laurent Pichat, diretor da revista Revue de Paris, onde a história foi publicada pela primeira vez, em episódios e com cortes. Dias antes, Flaubert proferira a célebre resposta à pergunta sobre quem seria Madame Bovary:

“Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu). 

Saiba mais sobre o processo criativo de Flaubert nesta aula do professora Verônica Galindez-Jorge:

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