Claudio Andrés Barría Mancilla1
O conceito de “educonexão” é central para o sistema de gestão da aprendizagem da Pluriverso. É concebido como uma abordagem inovadora para a gestão de processos dinâmicos e coletivos de ensino-aprendizagem. E ao mesmo tempo uma abordagem pedagogico-metodológica, e uma base para o desenvolvimentos de interfaces digitais que facilitam a organizações a implementação de percursos formativos participativos e a criação autônoma de comunidades e redes.
As primeiras reflexões que levaram educadores populares, pesquisadores e designers a desenvolver o conceito de Educonexão (Daniela Nunes Araújo, Claudio Barría Mancilla, Paula Latgé entre outros), surgem a partir de uma primeira reação de estranhamento ante o nome dado comumente ao ensino online: Educação à Distância ou EaD.
Como juntar educação e distância em um mesmo conceito e continuarmos em coerência com nossa longa trajetória de aprendizados advindos da práxis coletiva da Educação Popular?
Logo nos primeiros meses da pandemia global, essa incongruência parecia se agudizar. Parecia que no meio digital, só era possível a reprodução de práticas conteudistas e lineares da educação, onde um expõe conhecimentos e o outro recebe, sem diálogo nem interação. O termo Educonexão carrega consigo elementos de uma filosofia pedagógica para os processos de ensino-aprendizagem em meio digital e permitiu ao coletivo desenvolver um conceito de irteface que permitisse implentar percuros formativos de forma autônoma, assim como a construção de comunidades dentro da Pluriverso.
A base para essa abordagem tecnológica e pedagógica já é robusta e vem de longa data. Assim, ela aproveita experiências existentes, conhecimentos acumulados e tecnologias colaborativas da cibercultura, como softwares de código aberto (Open Source), licenciamento Creative Commons e iniciativas Open Access. Esses recursos permitem o desenvolvimento de estratégias de mediação seguras, eficientes e autônomas.
A adoção de tecnologias como Open Source e Creative Commons pela Pluriverso não é apenas uma escolha técnica, mas uma declaração ética e política que visa construir uma infraestrutura digital que se contrapõe diretamente à lógica do capitalismo de vigilância e da espetacularização. Open Source e Creative Commons são tecnologias que emanam princípios que promovem a colaboração, a transparência e a autonomia do usuário, em oposição ao controle proprietário e à monetização de dados.
Entendemos que não é possível separar tecnologia e visão de mundo, isto é, nossas opções são sempre opções políticas. Ao escolher essas bases, a Pluriverso está construindo uma alternativa digital que reflete seus valores descoloniais e de economia solidária, garantindo soberania digital, assim como uma tecnologia que sirva à “potência civilizatória” dos sujeitos subalternizados, e não ao controle corporativo.
O conceito de educonexão e sua primeira experiência concreta, a plataforma Pluriverso, surgem na contramão, buscando conectar trajetórias coletivas de movimentos, territórios e organizações, em torno de causas e percursos formativos.
O conceito de Educonexão não se restringe ao uso de tecnologias digitais, nem se esgota nos ambientes digitais, embora não prescinda deles. Pelo contrário, trata-se de um conceito complexo, interplataforma, que se propõe a contribuir como espaço de mediação de processos sociais, em diversos ambientes que questionam e interpolam virtualidades de processos coletivos de diálogo de saberes a partir de territórios locais também diversos.
Como desdobramento do fazer-pensar a educação popular, o conceito de Educonexão se sustenta no entendimento de que a convergência de trajetórias coletivas em torno de uma ideia força ou de uma causa comum, produz conhecimento politicamente pertinente a partir da ampliação da superfície de contato dos sujeitos envolvidos, ampliando o impacto das suas ações.
Nesse sentido, ganha relevância e contexto o primeiro registro do conceito de educonexão, definido no artigo acadêmico “Comunicação, educação e vigilância popular em saúde em tempos de COVID-19”, (LATGÉ; ARAUJO e SILVA JÚNIOR, 2020) como relativo à construção de processos orgânicos e colaborativos para potencializar processos coletivos de construção de conhecimento. Uma conexão educativa a partir da integração de ferramentas digitais somadas a práticas orgânicas territorialidades, postas em relação, em uma epistemologia de polifonia de saberes.
Em um sentido mais amplo, podemos apontar que a Educonexão, longe de ser um novo modelo de plataforma de EaD, constitui uma abordagem pedagógica que entrelaça, de forma inovadora e até improvável, conceitos da educação popular, do webdesign e da comunicação, mais especificamente da educomunicação. Isto é feito ao entrelaçar a compreensão da Educação (Freire), da arte (Barbosa) e da Comunicação (Barbeiro, Sodré) como espaços de mediação social e cultural. E busca entrelaçar, a partir desse entendimento, as três tecnologias da memoria apontadas por Levy a oral, a escrita e a informática.
Claudio Andrés Barría Mancilla é Educador, músico, designer (diretor de arte) e pesquisador chileno radicado no Brasil desde 1995. Doutor em Educação pela UFF, bolsista FAPERJ e CNPq, é sócio-fundador da Pluriverso Coletivo, onde coordena o Núcleo de Pesquisa experimental em Arte e Ciências Humanas (NuPACh), idealiza a plataforma de Educonexão Pluriverso Diálogo de saberes e é Editor chefe da Revista Pluriverso.
